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05:43:55 pm on Janeiro 3, 2009 |
CAPÍTULO I – EM RÉ MAIOR
- Quem era? – perguntou ela.
- Ninguém – respondeu.
- Como ninguém? Ouvi você abrindo a porta e conversando com alguém.
- Não era importante. E tô tentando ouvir o jornal – concluiu ele pegando o controle remoto e aumentando o volume da TV, dando por encerrada a conversa recém-começada.
- Hmmm.
Era a segunda vez que isso acontecia. E em menos de três dias. Logo alguém ia perceber, não dava mais pra esconder. Esse jogo estava ficando cada vez mais complicado, as pessoas mais difíceis de serem manipuladas e, acima de tudo, o perigo pairava pelo ar seco e frio da noite escura do inverno paulista.
Era surrealista toda essa situação – no sentido literal da palavra: as cores, apesar do céu cinza e das ruas empoeiradas, a partir daquela noite passaram a ter um brilho diferente. Estavam mais vivas, radiantes. O vermelho principalmente. Vermelho… Nunca tinha parado pra pensar como o vermelho é instigante, provocador, atraente, é um ardor quase sexual, carnal… macabro.
- Você tá estranho – disse a moça de cabelos louros sentando-se ao lado dele no imenso sofá de couro escuro e abaixando o volume da TV – precisamos conversar.
- Conversar o quê? – retrucou, ríspido.
- Tudo, sobre tudo! Sobre nosso casamento, sobre esse apartamento enorme, sobre eu passar a maior parte do tempo nele sozinha, sobre suas intermináveis viagens… – continuou ela falando mais baixo, depois de uma longa pausa – sobre eu não ver mais em você o homem com quem me casei.
- O que você quer que eu faça? Eu trabalho que nem um imbecil pra te dar tudo do melhor! Você tem tudo que quer: jóias, vestidos caros, carro, o que mais você quer de mim?
- Quero você.
- Você não entende.
- Não entendo o que?
- É complicado.
- É, talvez eu seja limitada demais pra entender.
- Você quer mesmo saber?
- Lógico.
- Ok, então você vai ter a verdade: o fato é que…
Sua voz foi cortada pelo barulho incrivelmente alto dos vidros da porta da sacada se estilhaçando por entre as cortinas, fazendo com que ele instintivamente se jogasse pra cima dela numa tentativa de protegê-la de algo que ele ainda não sabia.
Não tiveram muito tempo pra pensar. Em poucos segundo perceberam o que estava acontecendo: um pequeno objeto cinza-escuro vinha rolando lento e insuportavelmente silencioso na direção deles, deixando-os mais desnorteados do que já estavam. Foi tudo muito rápido. As mentes relutantes não queriam acreditar no que os olhos viam, e num gesto épico, quase poético, ele a tomou nos braços e sussurrou alguma coisa no seu ouvido, quase prevendo o estava por vir. Quando ela abriu lentamente os lábios pra responder, o som de um estouro inundou o ambiente, estilhaços de móveis voaram para todos os lados ricocheteando por entre as paredes recém pintadas, que agora eram corroídas pelo fogo que tomava conta do andar todo do prédio.
(…)
Do lado de fora, à sombra de uma árvore, um vulto observava tudo.
“Bom trabalho!” – disse a voz ao telefone.
Ele então deu meia volta, atravessou a rua, caminhando no sentido contrário aos carros de polícia e ambulâncias. Entrou no veículo, deu a partida, com um gesto rápido apertou o play no volante e seguiu caminho enquanto Pachelbel e seu cânon em ré maior preenchiam sua mente agora vazia.
CAPÍTULO II – QUEDA E ASCENÇÃO
Durante algum tempo, ele se limitou a dirigir por quadras próximas, sem se afastar muito do local. Não queria perder nada nem ninguém de vista. Se alguém visse seu olhar fixo na rua à sua frente, jamais imaginaria quão frenéticos estavam seus pensamentos. O cérebro calculista em atividade e os raciocínios rápidos faziam suas pálpebras pularem discretamente – o único sinal visível de ansiedade.
Estacionou em uma ruazinha mal iluminada e estreita. Chovia fraco. Algumas pessoas entravam e saiam de pequenos bares à meia-luz que se espalhavam discretos ao longo da rua. Sons muito baixos de música eram ouvidos vindos de um pequeno pub em que uma banda tocava para os casais sentados às mesas com velas e flores.
O que teria acontecido? Já era tempo suficiente. Ele chegara tarde, mas não tão tarde a ponto de pôr tudo a perder. Não poderia dar nada errado, não dessa vez. Os ponteiros do relógio pareciam estar se movimentando cada vez mais rápido. No silêncio de dentro do carro era possível ouvir o tic-tac quase inaudível. Foi quando, de repente, com um estrépito ensurdecedor, os vidros do carro em estouraram e se desmancharam em milhares de cacos em uma fração de segundo.
Instintivamente, ele se jogou no banco do passageiro enquanto os tiros cortavam o ar poucos centímetros acima da sua cabeça. De repente… silêncio. Ele aguardou alguns instantes imóvel, sem arriscar qualquer movimento em falso. Não eram permitidos erros nesse jogo. Sua vida dependia disso. Lentamente ele se virou de costas e, ainda deitado, sentiu o câmbio do carro pressionar suas costas.
Com olhos rápidos, logo percebeu de que lado vieram os tiros: o estofado da porta onde seus joelhos tocavam estampavam rasgos queimados, denunciando que seu assassino estava do lado esquerdo da rua. Lentamente, com a mão esquerda, tomou sua arma presa à cintura, e com a direita, abriu a porta, na esperança de escorregar para fora do veículo do lado oposto do seu assassino. Só então percebeu seu erro. “Ponha as mãos na cabeça e solte a arma” – disse uma voz masculina, calmamente, por trás da máscara preta, nesse momento apontando uma arma para sua cabeça.
Ele soltou a arma que caiu no assoalho do carro com um baque surdo, colocou as duas mãos na cabeça obediente.
- Agora saia do carro devagar. E não queira bancar o engraçadinho comigo, há mais quatro armas apontadas pra sua cabeça prontas pra ver quais reações químicas vão acontecer quando seus miolos tocarem o asfalto.
Saiu do carro. Olhando ao seu redor, percebeu que havia vários prédios médios antigos espalhados por toda a rua, impossível de se distinguir quem, o que ou se havia realmente alguém mais, além do rapaz da máscara. Eles caminharam em direção a um carro preto estacionado numa ruela paralela, cheia de lixo e gatos por todo lado. Ele teve suas mãos amarradas e foi jogado no porta-malas.
Durante aproximadamente vinte minutos, o carro andou em alta velocidade e fez inúmeras curvas, emaranhando-se cada vez mais pelo centro da cidade. “Eles querem que eu não saiba pra onde estão indo”, concluiu ele, tentando se desvencilhar das cordas que amarravam seus pulsos de maneira impossível de se soltarem. Dificilmente sairia vivo, as coisas nunca tinham sido tão difíceis e tudo conspirara para que esse fim. Onde estariam os outros agora?
Perdido em seus pensamentos, sentindo uma agonia atípica tomando conta do seu peito, ele sentiu uma pancada forte e foi jogado em direção à frente do carro. Sua cabeça bateu com força na parede interna do porta-malas. O carro tinha batido. Mas por quê? Como? Seria sua chance de escapar? Uma luz de esperança se acendeu. “Eles chegaram”. Depois de um breve momento, o porta-malas foi aberto, do lado de fora, contra a luz de um poste na rua, ele viu um rosto conhecido.
- Daniel, Daniel, já tô ficando cansado de salvar sua vida. Que tal a gente revezar de vez em quando, assim, só pra sair da rotina?
- Devo concordar, mas esses salvamentos estão ficando cada vez mais lentos, convenhamos. E a gente pode ficar a noite inteira aqui conversando se você não tiver outros planos. Mas se quiser me tirar logo daqui eu agradeço, meus braços estão dormindo.
- Você me deve uma. Aliás, mais uma. – disse o homem alto de olhos negros como a noite, enquanto o desamarrava e tirava do carro.
Saindo do veículo, Daniel pode ver a cabeça do seu assassino pendida contra o vidro do carro, manchado de sangue. Ele caminhou na direção do cadáver e lhe arrancou a máscara. “Amadores” – disse em voz alta. “E trabalhava sozinho”.
Os dois então entraram em um outro veículo que partiu em alta velocidade em direção à via expressa, distanciando-se do centro da cidade o mais rápido que podiam.
- Arthur, desculpa incomodar, mas acho que a Célula fica pro outro lado. – exclamou Daniel.
- Não estamos indo pra lá.
- Como não? Você tá maluco? Esse carro é rastreado, não podemos quebrar o protocolo, senão não vai ter ninguém pra salvar nossas vidas.
Arthur não respondeu. Concentrou-se na direção fazendo uma leve curva à direita, passando por uma placa indicando “Aeroporto Internacional”.
- O quê? Você só pode estar maluco, a gente não pode sair do país. Nos pegariam antes que você pudesse sequer pensar em quanto sua idéia é estúpida. – falou Daniel aos berros, sem conseguir conter seu nervosismo. “Calma. Vai dar tudo certo. Tome.” – Arthur lhe entregou uma bolsa de couro – “aí dentro tem dinheiro, celular e cartão de crédito, não deu tempo de conseguir sua nova identidade, mas já estou providenciando isso, que nome você prefere, Gerard ou Robert?” – disse lançando-lhe um leve sorriso acompanhado de um olhar preocupado, mas firme.
O carro entrou pelos portões do fundo do aeroporto. Na guarita, após uma rápida identificação com os seguranças, as cancelas se ergueram e o carro rumou para um pequeno anexo ao galpão, onde ficaram os aviões particulares. O veículo parou e eles desceram. Três pessoas os esperavam, paradas ao lado de um jato pequeno. No escuro não era possível distinguir quem eram aquelas pessoas, apenas que uma delas trajava um uniforme azul e branco, provavelmente o piloto do avião, e as outras duas… não foi preciso muito tempo e Daniel logo percebeu de quem se tratavam.
- Daniel, esses são Melissa e Carlos. – disse Arthur – creio que você os fez uma visita rápida essa noite.
- Mas como… vocês estavam… o apartamento… – exclamou Daniel, confuso, sem conseguir fazer com que as palavras saíssem corretamente.
- Pois é, tivemos muita sorte, se você não tivesse nos avisado jamais teríamos escapados vivos de lá. Você salvou nossas vidas, jamais poderemos agradecê-lo por isso.
Ambos estavam muito machucados, Daniel podia ver facilmente os rostos de ambos cortados, provavelmente pelos estilhaços dos móveis, as peles exibiam graves queimaduras, muitas delas já cobertas com um gel e curativos, e, embora as roupas estivessem limpas, provavelmente trocadas recentemente. não escondiam o pavor e medo no rosto do casal. Começara a chover.
- Não temos muito tempo. Daniel, você está com o envelope? – perguntou Arthur.
- Estou – respondeu, com milhões de perguntas na cabeça a serem feitas.
- Ótimo. Subam naquele avião – disse Arthur apontando para um pequeno avião preto sem identificação visível – Aqui estão as demais instruções. Chegando lá, haverá uma pessoa esperando por você. O código de confirmação está anotado na penúltima nota do maço de dinheiro. Você conhece o procedimento, Daniel. Agora vão.
Os três subiram no avião que decolou com um barulho extremamente alto. A aeronave atingiu altitude rapidamente, passando pelas nuvens em meio aos clarões dos relâmpagos.
- Pra onde estamos indo? – perguntou Melissa, curiosa.
Daniel abriu a maleta e pegou alguns papéis, surpreso por não ainda ter se feito essa pergunta.
- Bom… vocês gostam de cangurus?
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07:05:33 pm on Janeiro 2, 2009 |
Hoje, 2 de janeiro de 2009.
Dizem que é preciso se reinventar para evoluir. Mesmo parecendo um Pokemon com esse papo, eu concordo. É por isso que todo o lixo velho foi jogado fora, exatamente pra dar lugar ao lixo novo. Nada de nostalgia, o que passou, é passado; aqui surge à la Sidney Sheldon, um outro lado de mim.
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